Manifesto do Escritor Morto

Não me inspira nada.

Escrevi tantos anos por obrigação de dinheiro que
Não me inspira nada.

A inspiração é pequena, ínfima.
como uma poça de água que fica no asfalto após uma chuva rápida.
Os passarinhos tomam banho ali
Mas os passarinhos tomando banho ali ficaram óbvios numa poesia
Isso não me inspira.

Nem isso, nem nada.
Não me inspira nada
A não ser aqueles minutos entre a vigília e o sono
Ali me inspira tudo.
As mais belas frases e as mais belas cores.
As músicas interessantes, as melhores sacadas.
As mais belas musas vem me visitar.

Porém já é tarde, tenho sono
a preguiça é rainha no meu corpo
E não me escrevo mais nada

Só escrevo isto
Só reclamo
E pelo prazer de reclamar
até parei de preparar
meu precioso café

falando em línguas

Cada um tem sua própria língua.
Particular.

Se falássemos mesmo
a mesma língua
não teríamos tantos problemas
de comunicação.

check-point

Acho que os déjà vus são como check-points da vida.
Pontos em que somos obrigados a passar, independente de como fazemos o caminho anterior a eles ou depois deles.

03:00

São três horas da tarde
no relógio da cozinha
Às vezes me assusto, estou muito atrasada
Outras vezes eu relaxo, há tempo até demais

Não sei qual é o tempo
Das coisas, das pessoas
Até que eu tire um tempo
E compre novas pilhas

conversa de apartamento

Não sei se teu perfume é forte o suficiente para ficar sob meu nariz
ou é algum tipo de memória olfativa boa que faz você continuar pairando no ar da minha sala

mas
não, eu não escondo nada.
Ou talvez esconda, mas a verdade é que descobri um pouco mais sobre você hoje.
porque talvez você também não esconda nada, mas também esconde.

No que estou pensando agora é como será nosso próximo encontro.
Talvez eu devesse ir até sua casa. E até lá, talvez eu devesse saber como agir.
Mas
não, eu não sei.

Prefiro ser assim. Acho que você também.

Frio

Toquei a campainha.

Você abriu o portão da sua casa
e os botões da sua calça
como se sentisse muito minha falta.

Como se me quisesse.
Mais que antes.
Mais que sempre.
Como se o tempo tivesse doído mais em você.

Tempo.

Você trancou a porta do seu quarto. Me acolheu sob sua coberta como se sentisse frio.
E minha roupa contra seu corpo nu sob a coberta era o calor que você precisava.
Precisou esse tempo todo.

Você me deu um beijo.
Destrancou a porta.
Levou-me ao portão e se despediu com um até mais.
Eu dei partida no carro e, dentro do meu casaco mais quente para inverno
fui embora sentindo frio.

As pessoas que andam pelas ruas falando sozinhas
Elas só estão pensando em voz alta.

Falamos sozinhos com a gente mesmo todo o tempo
em pensamento.