Descompasso

Marco o tempo com batidas de pé
Como marco os compassos
e as canções

Bato o pé rápido demais
passo largo, descompasso.
o tempo não funciona assim

Estamos vivendo além do tempo
Você notou?
Uma ilusão confortável
de algo impossível

Você pode mudar as idéias
Eu posso trocar os acordes
Mas nunca conseguiremos enganar o tempo

só a nós mesmos.

(Ruca S.)

De tardezinha.

A metalinguagem
As abstrações
e as figuras de linguagem
são muito bonitas,
sabe.

Mas elas cansam.
São essas as horas em que eu queria poder ser com você uma simples tarde ignorante de sábado.

(Ruca S.)

Um fato.

“Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, por ter apenas uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese por meio de experimentos, por isso não saberá nunca se errou ou acertou ao oberecer a seu sentimento”

(em “A insustentável leveza do ser” – Milan Kundera)

Superfacilidade

Predominante silenciosa
uma relação em que
por mais que eu fale
por mais que você fale
(eu primeiro, que falo demais)
sabemos: o silêncio fala muito mais de nós

De nós, da singularidade
Que não somos como os outros
nem queremos que nos entendam
O prazer é único de uma alma irmã
Que ouve
e sorri
e pronto.

É como esse dia lindo, de céu azul
nossa amizade
tão superficial amizade
que às vezes é das mais profundas

Nos dessem todo o silêncio de que precisamos
Ou apenas o barulho do mar, de verdade.

Teríamos tudo.

(Ruca S.)

Um de cinco entre dois

Perde-se o cheiro
o sabor
o toque
e os sons

ficam apenas imagens
e palavras
dia após dia saturando um único sentido
pervertendo sentidos
que não precisariam ser explicados
se ouvesse

o cheiro
o sabor
o toque
e o tom de voz

 

(Ruca Souza)

Ela e a bolsa

Ela colocou tudo na bolsa.
Saiu debaixo do cobertor, naquela manhã de fim de maio, e ainda sentada na cama abriu a bolsa,  jogando o celular dentro – aquele que apitava para que ela tivesse mais um dia de trabalho.
Levantou-se. Calçando as pantufas rosa, que eram bem-vindas em manhãs frias, segurou a bolsa bordô pelas alças. Pôs-se de pé no centro do quarto. Olhou em volta. Viu, na sua memória, que dentro daquela gaveta tinha uma pessoa. Abaixou-se um pouco, estendeu o braço e abriu a gaveta. Mexericou em meio a papéis, grampos de cabelo, anotações, tampinhas de cerveja…  Achou! A foto 3×4 do ex-namorado. Colocou sem muito cuidado na bolsa.

Viu aquele relógio. O relógio viu ela também. Bonito relógio pra decorar seu quarto, mas era sempre muito pontual. Também lhe viu o carnê da loja de sapatos. Deu um passo, pegou o carnê, pegou o relógio e colocou na bolsa.

Nisso seu gato pardo veio lhe dar um bom dia, passeando e roçando-lhe as pernas. Pensou “Ponho ou não ponho?”.

Não colocou o gato na bolsa. Ele não lhe fazia nenhum mal. Mas agachou e acariciou o gato. Pode ver, então, embaixo da mesa do computador, lá no fundo caído, um ingresso usado de teatro. Pôs-se de quatro, de gato, e arrastou até lá no fundo, estendendo os dedos curtos pra pegar o ingresso. Quase colocou os dedos na tomada, é verdade. Mas não era o ingresso. E a peça tinha sido boa, enfim. Era outra coisa. Não vem ao caso.

Colocou o ingresso na bolsa.

Engatinhou para trás, sem calcular o espaço como ela tão bem calculava. Levantou-se antes de acabar o tampo da mesa. Deu com a cabeça. Doeu. Não desistiu. Mais pra trás. Levantou-se.

Em cima daquela mesa tinha muita coisa, alias. Era um absurdo. O computador não caberia, mas ok. Deixa o computador. Pegamos o HD. Abriu o computador, arrancou o HD e colocou na bolsa. E colocou mais. Colocou a régua, a calculadora, a luz de leitura; colocou o Freud, o Kundera, o Fante, o Kubric, o Sinatra… Só que eles também não caberiam todos. Pegou um papel, escreveu os nomes e colocou na bolsa.

Dando um giro no ar de cabeça, cabelos e corpo, olhou o armarinho. Quanta coisa tinha no quarto! Colocou os batons, a agenda, o rimel… Veja só, era uma bolsa grande sim. Dessas que parecem bolsa de viagem, mas as mulheres colocam de baixo do braço porque está na moda.

Tá bom, mas ela foi colocando várias coisas na bolsa, até quase entupir.

Na cozinha pegou o café, as chaves de casa, um pano de louça da mãe. Os documentos, o dinheiro… A carteira inteira. Tudo na bolsa.

Ia saindo de casa, de pijamas e pantufas, toda apressada tentando deixar uma coisa só fora da bolsa. Fingindo que esquecia. Mas ao pisas o pé lá fora não resistiu. Voltou correndo, esbaforida. De novo estava no quarto. E lá viu. Pendia sobre a cadeira giratória a blusa preta. Aquela blusa preta, na noite passada. Era uma pessoa esquecida, a pessoa da blusa, tão esquecida que nem lembrou.

Pegou a blusa com cuidado. Cheirou a blusa. Aquele cheiro de cigarro odioso, tão odioso que às vezes era um bom sinal. Pensou. Pensou mais uma vez. “Ponho ou não ponho”. Sem olhar pra baixo abriu o zíper, e sem olhar de novo afofou a blusa dentro da bolsa num esforço que seus dedos escoriam lagrimas. Fechou o zíper.

Saiu de casa. Pegou um ônibus. Não sabia se aquilo que faria era certo. Mas não queria pensar nisso e colocou os pensamentos na bolsa.

As pessoas no ônibus e na rua olhavam com caras estranhas. Pegou também os olhares e caras e colocou tudo na bolsa.

Chegara à praia, finalmente. Abriu totalmente o zíper e do jeito que veio ao mundo, de pijamas e pantufas, se jogou no mar. Deixou o mar levar tudo que não queria mais.

(Ruca Souza)

O chinês

Era um chinês e… o que eu poderia falar sobre um chinês que você não saiba, pessoa que lê? Bom… era um chinês que não vivia na China, ok? Ele tinha uma pastelaria. Espera! Os chineses parece que sempre têm uma pastelaria. Então já não é novidade pra você… Puts… e agora? Deixa eu pensar…

O fato era que o chinês era um homem muito solitário, ok?

Ah, você quer saber se tinha família? Tinha sim. Eles ficavam lá trabalhando na pastelaria. E sabe, é engraçado como os chineses falam fino. Ao menos esses ali. Pra menina tudo bem, e ela era mesmo muito bonita. Um rosto meio bolachudo, mas só meio. O suficiente para ser bonita como uma adolescente que vai virando mulher. Uma adolescente que vai virando mulher dentro de uma pastelaria, mais precisamente. Não, ela não fez nada de estranho, nada disso. Digo mulher de amadurecer, envelhecer.

Só que eu falava da voz fina. Dos filhos do chinês, aqueles homens chineses com cara de mau que falavam com voz aguda. Era engraçado. Toda vez que eu ia comprar um pastel, das primeiras vezes, me segurava pra não rir. E o jeito que eles falavam “coxinha de frango”: coxina de flaga. Aperte o nariz entre os dedos  e fale isso. “Coxina de Flanga”. É engraçado, não é? Mas a gente se acostuma e não rio mais.

Tá. Vamos voltar ao chinês.

Como seria o nome dele? Não sei. Nem vamos pôr um nome, ok, porque não sei inventar nomes em chinês. Era O chinês e pronto. E ele sempre vestia um boné verde, meio que de militar, quadradinho. E uma camisa vermelha com um casaco marrom claro por cima. Olhando assim, parecia um comunista. Um chinês comunista. E desculpe você se estou repetindo demais a palavra “chinês”. Gostei.

A “Pastelaria do Chinês” ( era esse o nome mesmo) ficava bem perto da igreja matriz da cidade. Na rua principal que dava em frente à praça da igreja. Do lado da farmácia da esquina. Esquina que ficava em frente à praça, mais precisamente. Era a farmácia numa esquina e o bar na outra esquina. No desemboque da rua. Está entendendo? Espero que sim.

Ok. O chinês não entendia muito daquele país. Seu campo de conhecimento sobre aquela cidade era bastante restrito: casa, pastelaria, bar da esquina; porto – rodoviária – estradas de saída da cidade (no caso de precisar fugir). Sabia falar a língua de lá, sim sabia. Mas era um homem muito solitário. Quieto. Por que ele era quieto? Não sei.

Sei que se encostava no balcão do bar, assim de pé mesmo e tomava uma coca-cola enquanto fumava cigarros. Geralmente dava pra fumar três cigarros tomando a latinha de coca-cola. Observava o caminhar das pessoas. Àquela hora  iam volta pra casa ou pra outros lugares. Ali ele ficava do fim da tarde até umas oito horas da noite. Não falava nada. Nem pra pagar a coca-cola. Quando acabava, jogava as moedas no caixa (com todo o respeito de um chinês, claro) e ia embora. Nunca falava. Não puxava assunto com nenhum dos homens que estava ali no bar.

O chinês usava bigode. Mas era um bigode bem fininho e ralo. E Talvez porque tomasse coca-cola e os outros homens tomavam cerveja, nenhum dos outros homens puxava assunto com o chinês. E o chinês não gostava de futebol pra puxar assunto com os homens dali. Nem tinha desrespeito com sua mulher pra ficar falando em público de outras. As outras mulheres só no escondido; só com dinheiro e no segredo.

Os jovens que freqüentavam o bar e a pastelaria (poucos jovens, dois ou três, incluindo a mim, ok?) achavam que o chinês não era só vendedor de pastel. Aquela roupa era muito suspeita. Tomar coca-cola num bar era muito suspeito. O silêncio dele era muito suspeito.

Bom, sei que nunca se soube mesmo se o chinês era um agente secreto ou não. Teve um dia que ele atravessou a rua, do bar pra pastelaria, e vinha uma moto numa velocidade alta. E o chinês nunca mais voltou pra China.

Na verdade eu acho que não foi isso que aconteceu. Eu é que não sei o que aconteceu. Acho que você sabe falar sobre o chinês mais do que eu. Acho mesmo que quem deveria falar sobre o chinês é você, não eu.

Afinal, o que você acha que aconteceu com o chinês?

Bis

Jogadas suicidas num tabuleiro de xadrez:
Perca (-se) de mim, outra vez.

Perguntas e re(vira)voltas

A obediência, em algumas pessoas, vem antes da liberdade. Não falo em transgredir, simplesmente. Sim, existem coisas que precisamos respeitar para a convivência. Mas não é isso. Falo da liberdade de agir e pensar. “Pessoas são pessoas”, já diria alguém. Mas, mesmo assim, mesmo cada um sendo a complexidade que é, não entendo como pode faltar essa coisa simples: fazer o que se quer.

Qual é o prazer de estar sob um amontoado de máscaras? Quando se respira?

Sim, são perguntas. E é delas que se faz a vida. Coisas sérias. Seriedades difíceis de lidar. Adultos são tão chatos… Isso tudo, aos olhos de uma criança, seria o que é: assim e ponto. Pode alguém me dizer que crianças são limitadas, não pensam além do que veem. Não acho.

Seria tão difícil viver a partir do óbvio? Porque o óbvio machuca tanto as pessoas?

E então dar certos sentidos à vida, às vezes, não faz sentido.

(Ruca Souza)

… sentirei saudades

As cidades são lindas
São Paulo, sentirei saudades

A saudade é coisa presente
Dor e alegria permanente

De longe as estrelas
de perto os olhos
mesmo que longe

São Paulo, sentirei saudades
São todas, sim, belas cidades, essas pessoas

E se quiseres saber de mim
consulte ao seu relógio
e ao seu coração
pois o amor é pontual

(Ruca Souza)

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