Ela colocou tudo na bolsa.
Saiu debaixo do cobertor, naquela manhã de fim de maio, e ainda sentada na cama abriu a bolsa, jogando o celular dentro – aquele que apitava para que ela tivesse mais um dia de trabalho.
Levantou-se. Calçando as pantufas rosa, que eram bem-vindas em manhãs frias, segurou a bolsa bordô pelas alças. Pôs-se de pé no centro do quarto. Olhou em volta. Viu, na sua memória, que dentro daquela gaveta tinha uma pessoa. Abaixou-se um pouco, estendeu o braço e abriu a gaveta. Mexericou em meio a papéis, grampos de cabelo, anotações, tampinhas de cerveja… Achou! A foto 3×4 do ex-namorado. Colocou sem muito cuidado na bolsa.
Viu aquele relógio. O relógio viu ela também. Bonito relógio pra decorar seu quarto, mas era sempre muito pontual. Também lhe viu o carnê da loja de sapatos. Deu um passo, pegou o carnê, pegou o relógio e colocou na bolsa.
Nisso seu gato pardo veio lhe dar um bom dia, passeando e roçando-lhe as pernas. Pensou “Ponho ou não ponho?”.
Não colocou o gato na bolsa. Ele não lhe fazia nenhum mal. Mas agachou e acariciou o gato. Pode ver, então, embaixo da mesa do computador, lá no fundo caído, um ingresso usado de teatro. Pôs-se de quatro, de gato, e arrastou até lá no fundo, estendendo os dedos curtos pra pegar o ingresso. Quase colocou os dedos na tomada, é verdade. Mas não era o ingresso. E a peça tinha sido boa, enfim. Era outra coisa. Não vem ao caso.
Colocou o ingresso na bolsa.
Engatinhou para trás, sem calcular o espaço como ela tão bem calculava. Levantou-se antes de acabar o tampo da mesa. Deu com a cabeça. Doeu. Não desistiu. Mais pra trás. Levantou-se.
Em cima daquela mesa tinha muita coisa, alias. Era um absurdo. O computador não caberia, mas ok. Deixa o computador. Pegamos o HD. Abriu o computador, arrancou o HD e colocou na bolsa. E colocou mais. Colocou a régua, a calculadora, a luz de leitura; colocou o Freud, o Kundera, o Fante, o Kubric, o Sinatra… Só que eles também não caberiam todos. Pegou um papel, escreveu os nomes e colocou na bolsa.
Dando um giro no ar de cabeça, cabelos e corpo, olhou o armarinho. Quanta coisa tinha no quarto! Colocou os batons, a agenda, o rimel… Veja só, era uma bolsa grande sim. Dessas que parecem bolsa de viagem, mas as mulheres colocam de baixo do braço porque está na moda.
Tá bom, mas ela foi colocando várias coisas na bolsa, até quase entupir.
Na cozinha pegou o café, as chaves de casa, um pano de louça da mãe. Os documentos, o dinheiro… A carteira inteira. Tudo na bolsa.
Ia saindo de casa, de pijamas e pantufas, toda apressada tentando deixar uma coisa só fora da bolsa. Fingindo que esquecia. Mas ao pisas o pé lá fora não resistiu. Voltou correndo, esbaforida. De novo estava no quarto. E lá viu. Pendia sobre a cadeira giratória a blusa preta. Aquela blusa preta, na noite passada. Era uma pessoa esquecida, a pessoa da blusa, tão esquecida que nem lembrou.
Pegou a blusa com cuidado. Cheirou a blusa. Aquele cheiro de cigarro odioso, tão odioso que às vezes era um bom sinal. Pensou. Pensou mais uma vez. “Ponho ou não ponho”. Sem olhar pra baixo abriu o zíper, e sem olhar de novo afofou a blusa dentro da bolsa num esforço que seus dedos escoriam lagrimas. Fechou o zíper.
Saiu de casa. Pegou um ônibus. Não sabia se aquilo que faria era certo. Mas não queria pensar nisso e colocou os pensamentos na bolsa.
As pessoas no ônibus e na rua olhavam com caras estranhas. Pegou também os olhares e caras e colocou tudo na bolsa.
Chegara à praia, finalmente. Abriu totalmente o zíper e do jeito que veio ao mundo, de pijamas e pantufas, se jogou no mar. Deixou o mar levar tudo que não queria mais.
(Ruca Souza)